Blog Moisés Arruda - Sobral/CE/Facebook-moiseslinharesarruda : Roda Viva de contradições

4 de out. de 2013

Roda Viva de contradições

 participação do governador Cid Gomes na edição da última segunda-feira do programa Roda Viva mostrou um político com jogo de cintura para escapar de determinadas polêmicas. Defendeu-se bem de ácidas insinuações. Superou provocações. Nesse embate com jornalistas, todavia, trouxe à tona um mar de contradições que dizem muito sobre sua trajetória e sobre sua própria personalidade. Sem falar de algumas outras questões para as quais não conseguiu elaborar respostas consistentes. Mas foquemos as incongruências de um discurso que torna ainda mais difícil a tarefa de decifrar Cid. Meio que na posição de analista da realidade política brasileira, o chefe do Palácio da Abolição criticou a aproximação do PSB, em alguns Estados, com partidos considerados por ele conservadores. Destacou como exemplo o PSDB, sigla da qual fez parte durante 8 anos e que prega a chamada social-democracia. Vertente que Cid diz defender. Curiosamente, o governador deverá integrar as fileiras do recém-criado Pros, que tem como principal bandeira - e até agora única - a diminuição da carga tributária. Pensamento esse que vai de encontro aos princípios do que se convencionou chamar de Estado de bem-estar social, organização cujo pilar é a forte atuação do Governo na economia.

O mais interessante disso tudo é que o próprio PSDB compôs a base aliada de Cid durante quase todo seu primeiro mandato. O rompimento só veio às vésperas das eleições de 2010, quando o governador optou por apoiar José Pimentel (PT) na corrida pelo Senado, em detrimento de Tasso Jereissati (PSDB). Ainda no campo das alianças, Cid condenou o projeto nacional encabeçado por PT e PMDB e outros partidos “que a gente sabe que estão interessados em questões mais pragmáticas que no bem estar dos brasileiros”. Sim, Cid tem apreço por eufemismos. “Acho que o Brasil precisa de um outro arco de forças para caminhar melhor”, enfatizou. Ora, ora. E por que então não larga logo esse grupo e ajuda a construir uma nova proposta para o País? Ao não fazer isso, o governador deixa claro que não se diferencia muito de outras personalidades, nem está tão distante assim da lógica que move boa parte da política local: o poder pelo poder.

Ao comentar a saída do PSB do governo Dilma, faltando mais de um ano para as eleições de 2014, Cid apontou “oportunismo” da parte de Eduardo Campos e companhia. Se isso soa como oportunismo, qual classificação daríamos para o comportamento do clã Ferreira Gomes aqui no Ceará? Trago apenas dois exemplos. Em 2006, o grupo permaneceu no governo Lúcio Alcântara até o limite do prazo de desincompatibilização. O mesmo se repete em 2012, quando após 7 anos e meio de parceria, o PSB resolve romper com a então prefeita Luizianne Lins (PT) e lançar candidatura própria ao comando da Capital cearense. Cid também tentou explicar a série de mudanças partidárias que marcaram sua história. Situação que põe em xeque sua consistência ideológica e reforça a tese de que o projeto local de poder está acima de qualquer estratégia nacional. Na avaliação dele, as críticas acontecem porque o troca-troca de agremiações denotaria a prática de fisiologismo. Algo que ele nega. “Mudamos de partido para lutar!”. Detalhe: Cid deixou o PPS em 2005 para se manter aliado do então presidente Lula. Cid agora deixa o PSB para permanecer ao lado da presidente Dilma.

E para não deixar dúvidas sobre a irrelevância que a ideologia tem na atuação política dos Ferreira Gomes, basta atentarmos para a concepção que Cid tem dos partidos, ao justificar uma possível ida para o Pros: “Eu penso no partido como um espaço de organização, de afinidades para que a gente lute por um projeto”. Não é assim nem em grêmio estudantil. Visão mais limitada, impossível. Todos estamos sujeitos a cair em contradição, é verdade. Mas quem envereda pelo mundo da política precisa se esforçar pelo menos um pouco para não cometer tantos deslizes. É toda uma credibilidade que está em jogo.

A VOLTA DA QUE NÃO FOI
A permanência de Luizianne Lins no PT reforça a tese de que uma possível ida da ex-prefeita para o PSB não passou de um blefe. Uma estratégia do governador Eduardo Campos para forçar a saída de Cid Gomes e seu grupo do partido. Resta saber como Luizianne utilizou essa “carta na manga” na negociação com a direção nacional do PT. Afinal, não deixa de ser tentadora a possibilidade de ir para uma sigla onde poderia fazer o que bem entendesse. Principalmente na situação em que se encontra, isolada dentro próprio partido. O conteúdo da reunião que teve com o presidente do Partido dos Trabalhadores, Rui Falcão, é guardado a sete chaves. Comenta-se, no entanto, que foi dada à ex-prefeita a garantia de que ficará com a vaga majoritária que couber ao PT nas eleições de 2014. O silêncio é mantido exatamente para não atiçar o principal interessado nesse espaço, o deputado federal José Guimarães. Conflito que só seria evitado na hipótese de o PT lançar candidatura própria ao Governo do Estado. Essa ideia, aliás, já se fortalece diante de um cenário que a cada dia fica mais claro: o senador Eunício Oliveira (PMDB) e um nome ligado diretamente ao governador Cid Gomes deverão disputar o Palácio da Abolição e exigirão o todo custo o apoio da presidente Dilma. Para se livrar desse “beco sem saída”, só mesmo a desculpa de ter que ir para o palanque de um correligionário.

O ÚLTIMO A SAIR APAGUE A LUZ
Quem acompanhou a performance do PSDB do Ceará nos anos 90 e início dos anos 2000 jamais imaginaria que o partido chegaria à situação penosa em que se encontra atualmente. Já fraca, a legenda perde agora dois de seus principais nomes: o deputado Fernando Hugo e o ex-presidente da Assembleia Marcos Cals. Migram para outros partidos por motivo de sobrevivência política. E ajudam a provar o quão dependentes de poder são determinadas legendas. Sem saber se era base ou oposição ao governo Cid, o PSDB foi sangrando aos poucos. A derrota de Tasso Jereissati para o Senado, em 2010, foi um golpe duro demais. A última esperança seria uma nova candidatura do ex-governador. Com as movimentações de Hugo e Cals, entretanto, confirma-se mesmo que o grão-tucano não sairá de sua aposentadoria. Cuidar dos netos ainda lhe traz mais satisfações que uma incerta empreitada eleitoral.

O jornalista escreve excepcionalmente Hoje

Ítalo Coriolano
Jornalista, editor-adjunto do núcleo de Conjuntura do O POVO
coriolano@opovo.com.br

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